ACE Casual Friday #5: Brioches para Os Miseráveis numa França de contrastes
Ana Paula Carvalho · 18 set 2026 · 6 min de leitura

Bom dia! Prepare seu café com croissant ou brioche, porque hoje o nosso desjejum será nos jardins de Versalhes. A curadoria desta edição traz o filme Marie Antoinette, de Sofia Coppola, e o romance Os Miseráveis, de Victor Hugo. Antes deles, veremos uma expressão de inglês corporativo de origem francesa e a herança do francês no vocabulário inglês, os chamados loanwords.
1. Business English Expression of the Week: "Build rapport"
Rapport /ræˈpɔːr/ é um substantivo francês derivado do verbo rapporter, que significa "trazer de volta" e também "referir-se a". No inglês, a palavra designa uma relação de confiança e entendimento mútuo."
Exemplo: "Before we start negotiating, we need to build rapport with the client."
Tradução: "Antes de começarmos a negociar, precisamos estabelecer uma relação de confiança com o cliente."
A construção mais comum é "build rapport with someone". Para uma relação já existente, use "have a good rapport with someone".
2. Interculturalidade: Empréstimos linguísticos do francês
Historicamente, encontros interculturais moldaram o léxico das línguas em contato. No inglês, a herança francesa se acumulou em dois períodos, cada um com causas próprias. O primeiro veio com a Conquista Normanda, em 1066. Por mais de um século, o francês normando foi a língua da nova elite, e seguiu presente nos tribunais e no Parlamento até o século XIV: só em 1362 o inglês foi usado pela primeira vez na abertura de uma sessão parlamentar.
Estima-se que cerca de 10 mil palavras francesas tenham entrado no inglês a partir do século XIII, muitas ligadas ao direito e à administração, como attorney e tax, e cerca de três quartos delas seguem em uso. Várias tomaram o lugar de palavras nativas: leod deu lugar a people, e wlitig, a beautiful (Crystal, 2019).
O segundo nasceu do prestígio cultural da França, que fez do francês a língua da diplomacia e das elites europeias do século XVII ao início do século XX. Durante séculos, saber francês significava poder ler as obras de filósofos, poetas e romancistas na língua em que foram publicadas: um privilégio para poucos.
Por esses e outros motivos, o inglês foi incorporando termos do francês, e esses termos seguem sendo utilizados até hoje. Vários foram parar no mundo corporativo, por isso preparei para você uma lista com alguns deles, acompanhados de transcrição fonética e de um exemplo de uso com tradução. Fique à vontade para incorporá-los ao seu dia a dia.
Liaison /liˈeɪzɑːn/: elo entre pessoas ou grupos. She acts as a liaison between sales and engineering. → Ela atua como elo entre vendas e engenharia.
Niche /niːʃ/: nicho de mercado. The company found a profitable niche in Europe. → A empresa encontrou um nicho lucrativo na Europa.
Résumé /ˈrɛzəmeɪ/: currículo nos Estados Unidos; no Reino Unido e na Europa, prefira CV. Please send me your résumé. → Por favor, envie seu currículo.
Bureau /ˈbjʊroʊ/: sucursal ou órgão público. The newspaper has a bureau in Paris. → O jornal tem uma sucursal em Paris.
Entrepreneur /ˌɑːntrəprəˈnɝː/: empreendedor(a). She became an entrepreneur after launching her consultancy. → Ela se tornou empreendedora ao abrir sua consultoria.
3. Mídia: Marie Antoinette, de Sofia Coppola
Imagine cruzar uma fronteira e deixar nela até a roupa do corpo. Aos 14 anos, a caminho de um casamento arranjado, Maria Antonieta entra numa tenda armada sobre a divisa e ouve que a noiva não pode levar nada da corte estrangeira, nem o cãozinho. Entra pelo lado austríaco de vestido branco e sai pelo lado francês de espartilho azul-claro, no centro de um enquadramento simétrico. Começa ali uma vida feita para o escrutínio e o julgamento de uma corte que ela precisa, desesperadamente, conquistar.
À primeira vista, o filme parece mostrar apenas o luxo da corte: vestidos, sapatos, doces e festas, com toda a sua futilidade, e uma Maria Antonieta insaciável por novos objetos. Mas um olhar atento percebe que a crítica de Coppola está precisamente aí.
Maria Antonieta também é um objeto entre tantos, sem autonomia e despida de si num mundo que lhe cobra ritos e protocolos. Como esposa do delfim, precisa ser sempre agradável e bonita e zelar pela reputação numa corte de fofoqueiros. Sua fuga é o consumismo e a glutonaria. Quem nunca colocou um item desnecessário no carrinho de compras online ou atacou um docinho depois de um dia de cobranças que atire a primeira pedra.
Coppola foi ousada ao contar a história pela perspectiva de Maria Antonieta e mostrar o ser humano por trás de cada escolha problemática. Aceitar essa ambiguidade é difícil, sobretudo numa época em que as redes sociais fomentam polarizações. Consumir boa arte é, por isso, um ato de resistência: ela nos obriga a sustentar essa ambiguidade e treina nossos olhos para ver as múltiplas facetas humanas e entender o que nos leva às escolhas que fazemos.
4. Leitura da Semana: Os Miseráveis, Victor Hugo
É difícil escrever sobre um dos maiores clássicos da literatura francesa, porque parece que tudo o que havia para ser dito já foi dito. Mesmo assim, resolvi deixar meus "dois centavos" neste artigo. Começo dizendo que Os Miseráveis está no meu top 5 da vida. É um calhamaço? Sim, mas te prometo que é uma leitura viciante, daquelas difíceis de largar.
Victor Hugo cria personagens que carregam o melhor e o pior da sociedade, e muitos deles escancaram verdades incômodas. O livro dá voz aos excluídos e mostra os papéis que desempenham em períodos de instabilidade política e econômica. E revela como decisões de quem detém poder, mesmo que pouco, trazem consequências sérias para muitos: Jean Valjean passa quase duas décadas na prisão, e tudo começa com o roubo de um pão.
A história de Valjean fala de redenção e, acima de tudo, de não perder a graça e a esperança diante das injustiças da vida. Quando o bispo Myriel o protege depois de ter sido roubado por ele, Victor Hugo nos leva a pensar que um gesto simples de compaixão pode salvar uma alma, que também salvará outras, numa espécie de corrente do bem. Para mim, é nota 10 de 10.
5. Frase que me deixou pensativa
"Ensinem aos ignorantes o maior número de coisas possível; a sociedade é culpada por não oferecer instrução gratuita e responde pela noite que produz. Esta alma está cheia de sombra, e nela se comete o pecado. O culpado não é quem comete o pecado, mas quem criou a sombra." (Hugo, 1862/1990, p. 16)
Referências
Backman Rogers, A. (2019). Sofia Coppola: the politics of visual pleasure. Berghahn Books.
Coppola, S. (Diretora). (2006). Marie Antoinette [Filme]. Columbia Pictures; American Zoetrope; Tohokushinsha Film Corporation.
Crystal, D. (2019). The Cambridge encyclopedia of the English language (3ª ed.). Cambridge University Press.
Hugo, V. (1990). Les Misérables (I. F. Hapgood, Trad.). Wiretap; NetLibrary. (Obra original publicada em 1862)
