ACE Casual Friday

ACE Casual Friday #4: Czares, uma dama com seu cachorrinho e uma Rússia que você ainda não conhece

Ana Paula Carvalho · 4 set 2026 · 7 min de leitura

Bom dia! Hoje, trocaremos o café por chá preto com syrniki. Para esta edição, fiz uma curadoria sobre a Rússia Imperial e o que acontecia dentro e fora dos palácios. Passearemos por Petersburgo, Moscou e Yalta com Tchekhov e falaremos sobre uma expressão que leva o seu nome. Também veremos como o conceito de heteroglossia afeta a todos diariamente.

1. Business English Expression of the Week: "Chekhov's gun"

Há um conselho de Tchekhov que hoje aparece em contextos distantes, de revistas científicas de hematologia a periódicos de direito internacional. O nosso escritor da seção 4 argumenta que, se você pendurar uma arma na parede no primeiro ato, ela precisa disparar antes que a peça acabe. Se não for disparar, não deveria estar ali.

Em inglês, esse princípio deu origem à expressão Chekhov's gun: aquilo que alguém coloca em cena e que permanece ali, à espera de produzir o efeito que justificaria a sua presença. Use para falar sobre algo que foi negociado ou anunciado, mas que segue sem uso e sem desfecho.

Exemplo: "We negotiated that termination right for months. Three years on, it's still a Chekhov's gun hanging on the wall."

Tradução: "Negociamos aquele direito de rescisão durante meses. Três anos depois, continua sendo uma arma de Tchekhov pendurada na parede."

Atenção à grafia: Tchekhov em português, Chekhov em inglês.

2. Interculturalidade: Heteroglossia

Você não fala do mesmo jeito com sua chefe e com sua tia no grupo do WhatsApp da família. Mas por quê? Bem, cada um desses contextos tem uma língua própria, com vocabulário, tom e regras próprias, e você transita entre eles sem nem perceber.

Foi isso que Mikhail Bakhtin escreveu nos anos 1930, ao tratar dos romances russos. Para ele, o que chamamos de "português" ou "inglês" não é homogêneo. É um amontoado de camadas: profissões com seu jargão, gerações com suas gírias, regiões com seus sotaques, classes sociais com seus modos de dizer. A isso, ele deu o nome de heteroglossia, do grego, algo como "línguas diferentes convivendo".

É interessante notar que cada camada carrega consigo uma visão de mundo. Quando alguém diz "otimizar o processo" em vez de "melhorar", não está apenas escolhendo outra palavra; está falando de um lugar social que enxerga o trabalho de determinada maneira. Daí a conclusão de Bakhtin: não existem palavras neutras, palavras que não pertençam a ninguém. Toda palavra chega até você já usada por alguém, já marcada por quem a usou antes.

Por isso, quem aprende outro idioma precisa também aprender a navegar por essas camadas com maestria, pois é isso que vai revelar o seu grau de proficiência. Também, isso dirá muito ao seu interlocutor sobre quem você é.

3. Mídia: Os Últimos Czares (Netflix)

Um jovem inseguro herda um império imenso. Em seguida, descobre que o filho tem hemofilia e a medicina da época ainda não tem soluções. Nessa brecha entra Grigori Rasputin, um camponês siberiano com fama de milagreiro, que consegue o que os médicos não conseguem: acalmar o herdeiro e sua mãe.

Daí em diante, a série mostra como o assunto saiu do quarto da criança e chegou ao gabinete. Para Alexandra, Rasputin é o canal direto de Deus, e quem tem a confiança da imperatriz acaba opinando sobre o Estado. Quando Nicolau parte para o front e deixa a esposa administrando o país, Rasputin torna-se o conselheiro mais influente da Rússia.

Essa é uma parte da história que não lembro de ter estudado muito na escola; é como se o país só tivesse nascido com a revolução de 1917. Vendo a década anterior, entendemos os motivos que levaram a população a aderir ao comunismo.

A série teve recepção difícil na Rússia, com historiadores apontando alguns erros factuais e anacronismos no figurino e no cenário. Mas não deixe isso te afastar; guarde como nota de rodapé a seção 2, já que ninguém conta uma história de lugar nenhum, e uma produção anglófona sobre a Rússia carrega o sotaque de quem a conta.

4. Leitura da Semana: A senhora com o cachorrinho, Anton Tchekhov

Algumas traduções apresentam este conto magnífico como "A Dama com o cachorrinho"; na minha edição, ele se chama "A senhora com o cachorrinho". Em inglês, a variação é ainda maior e encontramos The Lady with the Dog, The Lady with the Little Dog e The Lady with the Pet Dog.

Sobre Tchekhov, é preciso dizer que ele não se propõe a dar uma resolução em seus contos e as tramas não são rigidamente amarradas. Virginia Woolf diz que as primeiras impressões que temos ao ler Tchekhov são de perplexidade, e nos perguntamos por que ele escreveu sobre algo tão banal. Porém, após uma análise mais atenta, percebemos que esse método que parece se ocupar de pequenezas se mostra de uma originalidade requintada e meticulosa, revelando uma honestidade ousada.

A senhora com o cachorrinho tem, em sua superfície, um relacionamento extraconjugal entre Dmitri Gurov, um bancário moscovita que é casado com quem não ama, e Ana Serguêievna, "esposa troféu" de um homem a quem não consegue admirar. Mas isso é apenas a superfície. O que se apresenta, linha após linha, são sentimentos complexos e impasses existenciais.

Tchekhov não deixa claro as reais motivações de Dmitri e Ana, e o que podemos inferir é que, talvez, o tédio de uma vida vivida para as convenções sociais é o que impulsione os dois a ficarem juntos, como um ato de rebeldia. Por outro lado, também podemos acreditar que o que os dois sentem é amor verdadeiro. Pessoalmente, eu fico com a primeira hipótese. Agora, cabe a você, caro leitor, tirar suas próprias conclusões.

5. Frase que me deixou pensativa

"Cada existência privada se apoia no segredo, e, talvez em parte por isso mesmo, o homem civilizado se bate tão nervosamente pelo respeito à sua vida privada." (TCHEKHOV, 2021, p. 26-27)

Glossário

Syrniki: panquecas russas feitas com tvorog, um queijo fresco parecido com a ricota. Fritas na frigideira e servidas com smetana (creme azedo), geleia ou mel. Café da manhã tradicional na Rússia e na Ucrânia.

Czar: título do soberano russo, do latim caesar, pela mesma raiz que deu Kaiser em alemão. Em português coexistem czar e tsar; a primeira forma é a mais usada, a segunda é mais próxima da transliteração do russo (царь). Em inglês, tsar e czar.

Patronímico: o nome do meio russo, formado a partir do primeiro nome do pai. Ana Serguêievna é Ana, filha de Serguêi; Dmitri Dmítritch é Dmitri, filho de Dmitri. Homens recebem a terminação -vitch ou -itch, mulheres, -ievna ou -ovna. Chamar alguém pelo primeiro nome mais patronímico é o tratamento respeitoso e formal, o equivalente russo ao nosso "senhor" seguido do sobrenome. Repare que Gurov pensa nela como Ana Serguêievna durante quase todo o conto.

Heteroglossia: veja a seção 2.

Chekhov's gun: veja a seção 1.

Referências

DANILOV, Alexey V. Early intervention in CLL: not a Chekhov's gun. Blood, v. 148, n. 9, p. 1071-1072, 27 ago. 2026. DOI: 10.1182/blood.2026035015. Disponível em: https://doi.org/10.1182/blood.2026035015. Acesso em: 2 set. 2026.

ELDRIDGE, Stephen. Chekhov's gun. In: Encyclopaedia Britannica. Chicago: Encyclopaedia Britannica, 4 out. 2022. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Chekhovs-gun. Acesso em: 3 set. 2026.

OS ÚLTIMOS czares. Criação de Adrian McDowall e Gareth Tunley. Estados Unidos: Netflix, 2019. Série documental (6 episódios), son., color. Disponível em: Netflix.

ROVNOV, Yury. Article 17.6(ii) of the WTO Anti-Dumping Agreement: waiting for Chekhov's gun to go off. Journal of International Dispute Settlement, Oxford, v. 15, n. 1, p. 106-123, 2024. DOI: 10.1093/jnlids/idad013. Disponível em: https://academic.oup.com/jids/article/15/1/106/7209848. Acesso em: 2 set. 2026.

SPEKTOR, Alexander. The word about the word: Mikhail Bakhtin's theory of the novel. In: BUCKLER, Julie A.; WEIR, Justin (ed.). The Oxford handbook of the Russian novel. Oxford: Oxford University Press, 2025. DOI: 10.1093/oxfordhb/9780197520857.013.0011. Disponível em: https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780197520857.013.0011. Acesso em: 2 set. 2026.

TCHEKHOV, Anton. A senhora com o cachorrinho. In: TCHEKHOV, Anton. Contos. Seleção e tradução de Tatiana Belinky. 6. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2021. p. 00-00. (Clássicos de Ouro).

WOOLF, Virginia. The common reader. London: L. & V. Woolf, 1925.

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