ACE Casual Friday #6: O inglês da Índia e uma nuvem mensageira de uma cultura apaixonante
Ana Paula Carvalho · 9 out 2026 · 9 min de leitura

Bom dia! Hoje, tomaremos um chai ao som de um relaxante raga matinal, Nat Bhairav, tocado pelo extraordinário Ravi Shankar. Essa edição falará sobre o inglês da Índia; se há colegas indianos no seu time, essa é a sua oportunidade de entendê-los um pouco melhor! Também trago um filme com um plot twist surpreendente e, na seção de literatura, aquele considerado o guru de todos os poetas: Kalidasa.
1. Business English Expression of the Week: Prepone
Prepone /priːˈpəʊn/ é um verbo do inglês indiano criado como oposto de postpone: significa antecipar, trazer algo para uma data ou horário anterior. Comum em e-mails e comunicados oficiais na Índia, circula há mais de cem anos e ainda é pouco conhecido fora da Ásia do Sul.
Exemplo: "Can we prepone the sprint review to Thursday? Half the team is on leave on Friday."
Tradução: "Dá para antecipar a sprint review para quinta? Metade da equipe está de folga na sexta."
Num time internacional, é bem possível que um colega indiano proponha "prepone the deadline", e você já vai saber que a ideia é antecipar o prazo. Conhecer as variedades do inglês amplia a nossa escuta e mostra respeito pelo repertório de quem trabalha com a gente. Na hora de escrever para um grupo com pessoas de várias origens, porém, vale escolher as formas que todos reconhecem, e aqui a opção mais clara é "bring forward".
2. Interculturalidade: Hinglish e inglês indiano
Em 1998, numa entrevista ao jornal Maharashtra Herald, Ruchira Mukherjee afirmou que as pessoas na Índia começavam a pensar em inglês. Leitores debateram, em cartas, se o inglês seria capaz de ocupar no pensamento o lugar da língua materna. Para um deles, tratava-se de uma língua estranha aos indianos; para outro, era a língua de família de muitos deles (D'Souza, 2001). Mas o que significa, afinal, falar inglês na Índia?
Para responder, é preciso lembrar o peso institucional do inglês. Segundo Crystal (2019), ele é a língua oficial associada da Índia, sendo o hindi a língua oficial, e segue presente na justiça, na administração pública, no ensino médio e superior e na mídia. O autor menciona estimativas de que, em 2017, cerca de 20% da população usava o inglês regularmente, mas ressalta que há cálculos bem mais altos e bem mais baixos.
Esse uso assume formas variadas, e Cowie, Murty e Sinar (2024) destacam duas delas. De um lado, está o Hinglish, uma mistura de hindi e inglês, que varia conforme a escolaridade, a região, a geração e o interlocutor (Parshad et al., 2016). Do outro lado, está o inglês indiano, uma variedade com regras próprias, cujo sotaque é aceito com mais facilidade na Índia do que a gramática. Para ajudar você a entender melhor esses dois fenômenos, preparei alguns exemplos, acompanhados de traduções.
Hinglish
Inserção: palavras inglesas encaixadas numa frase em hindi. Mɛ̃ āj busy hũ, kal bill dūngā definitely. → Agora estou um pouco ocupado, amanhã trago a nota. (Gera Roy, 2013, citado em Cowie et al., 2024)
Conversa de trabalho: termos do mundo corporativo dentro de uma frase em hindi. Men Dilli gaya hua tha, ek selection committee ki meeting thi. → Eu estava em Delhi, tinha uma reunião do comitê de seleção. (Parasher, 2001, citado em Jenkins, 2014)
Alternância: orações em hindi e em inglês na mesma fala. Ya, right, sahī bōl rahī hō tūm. Hã, he keeps forgetting the things, no? → É, isso mesmo, você tem razão. Sim, ele vive esquecendo as coisas, né? (Klingler, 2017, citado em Cowie et al., 2024)
Inglês indiano
Intrusive as: verbos como call e term ganham um as que o inglês britânico e o americano não usam com eles. We develop what you call as a cavity. → A gente desenvolve o que vocês chamam de cárie. (Yurchenko et al., 2021)
Tension: a palavra ocupa o lugar de stress. Don't take too much tension, disse um funcionário de banco a um cliente preocupado, numa tradução literal da expressão hindi zyaadaa tension mat lenaa. → Não se estresse tanto. (D'Souza, 2001)
Fórmulas de polidez: pedidos com kindly e please, onde o inglês britânico costuma usar construções com could. Kindly please advise me. → Por gentileza, me oriente. (Parasher, 2001, citado em Jenkins, 2014)
3. Mídia: O Tigre Branco, Netflix
Não é todo dia que um ex-motorista escreve a um chefe de governo, mas Balram (Adarsh Gourav), hoje empresário, acha que tem muito a ensinar ao premiê chinês Wen Jiabao, que está prestes a visitar a Índia. No e-mail, ele conta a própria história: destinado à barraca de chá da família, aprendeu a dirigir e conseguiu, à custa de muita lisonja, um emprego como motorista de Ashok (Rajkummar Rao), o filho mais novo da família de senhores de terras que mantém a aldeia na miséria. Ashok acabava de voltar de Nova York com a esposa, Pinky (Priyanka Chopra Jonas).
Em Delhi, as duas Índias dividem o mesmo prédio. Ashok e Pinky moram num apartamento claro e espaçoso, enquanto Balram dorme num cubículo escuro no subsolo. O único lugar onde a hierarquia se inverte é o carro: quando Balram está ao volante, quem conduz é ele.
Balram é um mestre do sorriso servil e do elogio na hora certa. Se você já criticou a ideia da chefia na hora do cafezinho com os colegas e, dez minutos depois, concordou com tudo na reunião, sorrindo, conhece uma versão mais leve desse método. O que a gente não é capaz de fazer para pagar nossos boletos em dia, não é mesmo?
O título vem de um animal raro, que supostamente nasce uma vez a cada geração, e é assim que Balram passa a se ver. A crítica elogiou o trabalho de Adarsh Gourav. Para Joe Morgenstern, do Wall Street Journal, o ator faz de Balram um mentiroso e bajulador que permanece cativante até a história ficar mais sombria. Wendy Ide, do Guardian, considera Gourav excelente num papel escorregadio e observa que não precisamos simpatizar com os personagens para nos deixar prender por essa parábola sobre classe social. Na minha opinião, ele é o anti-herói perfeito.
4. Leitura da Semana: Meghaduta, de Kalidasa
Faz alguns anos que tenho me aventurado a ler literatura de partes do mundo que fogem do eixo Brasil/norte global. Desde então, tenho expandido meu entendimento sobre outras formas de habitar neste planeta chamado Terra. E, céus, que surpresa agradabilíssima descobrir o poema O Mensageiro das Nuvens de Kalidasa!
O poema acompanha um yaksha, servo do deus da riqueza, exilado por um ano longe da esposa por ter descuidado do dever. Magro de saudade, ele vê a primeira nuvem da monção e pede que ela atravesse a Índia levando uma mensagem de amor. Kalidasa, que escreveu o poema por volta do século V, brinca com o próprio plano: numa das primeiras estrofes, pergunta o que uma nuvem, feita de fumaça, fogo, água e vento, poderia ter a ver com mensagens, e responde que os apaixonados já não separam o que tem vida do que é inerte. A gente, que confia segredos a servidores do outro lado do mundo e chama isso de nuvem, está em boa companhia.
O estudioso Rick Jarow, que dedicou ao poema o livro The Cloud of Longing (2021), escreve que ler Kalidasa como relíquia de outra época reduz a leitura a uma visita ao museu. Para ele, a literatura funciona como um espelho em que nos olhamos, e obras de fora do cânone ocidental ampliam esse espelho. No fim do poema, o yaksha descreve o olhar da esposa nos olhos de uma corça e os cabelos dela nas plumas de um pavão, mas admite que não consegue reuni-la num só lugar. Separado da amada por uma maldição, ele passa a encontrá-la em pedaços pela paisagem; cada planta, cada bicho bonito o faz lembrar-se dela.
5. Frase que me deixou pensativa:
"We may be reading Shakespeare, Kālidāsa, or traditional folk songs, but we can only read them from where we stand." (Jarow, 2021, p. 47).
"Podemos estar lendo Shakespeare, Kalidasa ou canções populares tradicionais, mas só conseguimos lê-los a partir de onde estamos." (Jarow, 2021, p. 47, tradução nossa)
Cada leitura passa pelo repertório que carregamos, e, diante de uma obra de outra cultura, isso pede um cuidado duplo: perceber o que projetamos nela e deixar que ela desloque um pouco o lugar de onde lemos.
Sobre mim
Sou Ana Paula, mentora de inglês há mais de 14 anos, com mestrado em English Language and Intercultural Communication pela Universidade de Gotemburgo, Suécia. Na ACE, ensino Inglês Corporativo e Comunicação Intercultural para quem quer falar com autoridade e ascender em ambientes globais.
Inglês para convencer, influenciar e liderar. Se é disso que você precisa, me manda uma mensagem: a sessão experimental é gratuita.
Glossário
Chai: em hindi, chai quer dizer simplesmente "chá", e a palavra veio do chinês cha. O que fora da Índia costumamos chamar de chai é o masala chai, um chá preto fervido com leite e açúcar e temperado com especiarias como cardamomo e gengibre (Preston, s.d.).
Raga: do sânscrito, "cor" ou "paixão". Na música clássica do subcontinente indiano, é a estrutura melódica que orienta a improvisação e a composição. Tradicionalmente, cada raga é associado a um momento do dia ou a uma estação do ano (Nettl, s.d.).
Nat Bhairav: raga da música clássica do norte da Índia, tocada pela manhã, que combina elementos de outros dois ragas, o Nat e o Bhairav. Ravi Shankar o gravou no álbum A Morning Raga / An Evening Raga (1968).
Referências
Bahrani, R. (Director). (2021). The white tiger [Film]. Lava Media; Noruz Films; Array Filmworks.
Cowie, C., Murty, L., & Sinar, B. (2024). Decoding Bollywood: Why Hindi-English code-switching and standard English outrank Indian English. English Language and Linguistics, 28(4), 683–708. https://doi.org/10.1017/S1360674324000534
Crystal, D. (2019). The Cambridge encyclopedia of the English language (3rd ed.). Cambridge University Press.
D’souza, J. (2001). Contextualizing range and depth in Indian English. World Englishes, 20(2), 145–160. https://doi.org/10.1111/1467-971X.00206
Jarow, E. H. R. (2021). The Meghadūta of Kālidāsa. In The Cloud of Longing. Oxford University Press. https://doi.org/10.1093/oso/9780197566633.003.0002
Jenkins, J. (2014). Global Englishes: A resource book for students (3rd ed.). Routledge.
Nettl, B. (s.d.). Raga. In Encyclopaedia Britannica. Recuperado em 2 de outubro de 2026, de https://www.britannica.com/art/raga
Parshad, R. D., Bhowmick, S., Chand, V., Kumari, N., & Sinha, N. (2016). What is India speaking? Exploring the "Hinglish" invasion. Physica A, 449, 375–389. https://doi.org/10.1016/j.physa.2016.01.015
Preston, C. (s.d.). Is chai tea redundant? In Encyclopaedia Britannica. Recuperado em 2 de outubro de 2026, de https://www.britannica.com/topic/Is-Chai-Tea-Redundant
Yurchenko, A., Leuckert, S., & Lange, C. (2021). Comparing written Indian Englishes with the new Corpus of Regional Indian Newspaper Englishes (CORINNE). ICAME Journal, 45(1), 179–205. https://doi.org/10.2478/icame-2021-0006
