ACE Casual Friday #2: Um tour pelo Canadá com Munro e Atwood. Entre folhas de bordo e disfarces
Ana Paula Carvalho · 21 ago 2026 · 6 min de leitura

Bom dia! Hoje, nosso café será adoçado com maple syrup. Prepare-se para uma carona com duas escritoras por um Canadá que não cabe no Instagram e para descobrir a expressão em inglês que causou uma confusão digna de nota nas memórias de Churchill.
1. Business English Expression of the Week: "To table something"
Você está em uma reunião discutindo uma cláusula contratual e alguém diz: "We should table clause 4 regarding total liability today." O que a expressão "to table" significa aqui?
Se você respondeu "vamos discutir a cláusula 4 hoje", acertou. Se respondeu "vamos deixar a cláusula 4 para depois", também acertou. E é exatamente por isso que essa reunião pode terminar com os dois lados achando coisas opostas.
No inglês britânico, "to table" significa colocar o assunto em pauta para discussão agora. No americano, é justamente o contrário: engavetar, deixar para outro dia. Mesma frase, sentidos invertidos.
Então, quando ouvir "let's table this" numa reunião, não tente adivinhar. Pergunte: "Before we move on, let's align on what tabling means here." Repare no que essa frase faz: ela não pede socorro, mas propõe alinhamento. Você não aparece como quem não entendeu inglês, e sim como quem está cuidando para que a decisão saia certa.
Sugestão: quando você for propor algo, elimine a ambiguidade desde o início. Prefira "let's discuss this now" ou "let's put this on hold".
2. Interculturalidade: quando nem os falantes nativos se entendem
Aquela confusão do item acima é antiga e já atrapalhou gente com problemas bem maiores que os nossos. Churchill contou, em suas memórias da Segunda Guerra, que a expressão confundiu autoridades britânicas e americanas. Os britânicos propuseram "table a document" para debater o assunto com urgência, mas os americanos entenderam que queriam engavetá-lo.
Aliados, mesma língua materna, sentidos opostos. Ou seja, ser falante nativo não protege ninguém de um mal-entendido intercultural.
A origem da confusão está na imagem que cada lado tem da mesa. Para os britânicos, colocar o documento sobre ela é abrir o debate, já que todos podem apontar o trecho que querem discutir. Para os americanos, é o gesto de tirar o papel da mão e largá-lo de lado.
E o Canadá, que herdou o Parlamento de um lado e negocia diariamente com o outro? Usa os dois sentidos, dependendo de quem está falando. Por isso, na dúvida, peça esclarecimento.
3. Mídia: Alias Grace, Netflix
Uma imigrante irlandesa, cumprindo pena pelo assassinato de seu patrão e da governanta, diz não se lembrar da noite em que o crime ocorreu. Após 15 anos de encarceramento, um médico atravessa metade do continente para descobrir se ela está mentindo. Ele nunca descobre, e você também não.
Deram a ela vários apelidos: a demônia, a inocente, a idiota, a sedutora. Cada um foi inventado por um homem diferente com acesso a um jornal. Margaret Atwood escreveu o romance a partir daí, e Sarah Polley e Mary Harron o transformaram em seis episódios.
Então, preste atenção em quem fala sobre Grace ao longo da série: o médico, o advogado, o pastor e os jornais. Todos têm algo a ganhar com a versão que defendem. Ela é a única que não tem nada e não está no controle da própria vida.
A identidade de Grace é fragmentada, tal como a colcha de retalhos que costura ao longo dos episódios. Assista desconfiando de todo mundo, inclusive do médico simpático.
4. Leitura da Semana: O conto "Material", de Alice Munro
Os contos da laureada do Nobel de Literatura iluminam as pequenas ironias das relações humanas e recompensam os leitores atentos. A prosa de Munro é propositalmente despretensiosa, e é no que ela cala que a história emerge.
A narradora deste conto foi casada com Hugo, escritor famoso, e não perdoa uma linha da orelha do livro dele. Ela lê: técnico de linha de telefone, capataz de serraria, lenhador… Uma bio inflada, como as que vemos hoje no LinkedIn. Mas ela esteve lá no início e sabe que a experiência de "técnico de linha de telefone" dele foi, na verdade, pintar postes telefônicos por menos de duas semanas e largar o emprego porque o calor lhe fazia mal. A de "capataz de serraria" foi carregar madeira e ser xingado pelos verdadeiros capatazes durante um trabalho de verão na serraria do tio.
Ela conta isso com muito prazer, e a gente lê com o mesmo prazer, porque Hugo é fácil de detestar. Pai ausente, péssimo vizinho, adúltero. Munro nos serve esse homem em bandeja para o odiarmos.
E então, no meio do volume, a narradora encontra um conto que Hugo escreveu sobre Dotty, a vizinha do porão. Era um inverno chuvoso, e a bomba d'água ficava ligada noite após noite, atrapalhando o sono de Hugo. Certa noite, ele a desligou, mesmo sabendo que a casa dela alagaria. Dotty acordou com água pela altura dos joelhos.
Aqui é onde Munro faz o que só ela faz. Deixa você odiar Hugo por umas boas páginas. Espera você ficar confortável nesse ódio. E aí permite que a narradora explique, com toda a calma, o que ela própria fez naquela noite.
Sugestão: "Material" está em Selected Stories 1968–1994, e é uma ótima porta de entrada para quem nunca leu Munro e para quem deseja começar a ler ficção em inglês.
5. Frase que me deixou pensativa
"[…] everybody must have noticed as we go further into middle age, how shopworn and simple, really, are the disguises, the identities if you like, that people take up. In fiction, in Hugo's business, such disguises would not do, but in life they are all we seem to want, all anybody can manage." Alice Munro, no conto "Material", de Selected Stories 1968–1994, pp. 81–82.
Nunca aceitaríamos, num livro, uma personagem tão pouco construída quanto as pessoas que somos umas para as outras. Munro coloca as duas coisas lado a lado e a comparação não nos favorece. Na vida, uma identidade gasta e simples é tudo o que qualquer um consegue administrar, ela diz. Não como acusação, e sim como constatação do que é possível. Talvez esse seja o acordo silencioso da convivência: eu aceito a sua versão resumida, você aceita a minha, e seguimos com o dia.
Referências
ALIAS Grace. Direção: Mary Harron. Roteiro: Sarah Polley. Produção: Netflix; CBC. Canadá: Netflix, 2017. 1 minissérie (6 episódios). Disponível em: https://www.netflix.com. Acesso em: 20 ago. 2026.
ATWOOD, Margaret. Alias Grace. Toronto: McClelland & Stewart, 1996.
CHURCHILL, Winston S. The Second World War, Volume III: The Grand Alliance. Boston: Houghton Mifflin, 1950. Disponível em: https://ia801404.us.archive.org/10/items/in.ernet.dli.2015.57896/2015.57896.Second-World-War-The-Grand-Alliance.pdf. Acesso em: 20 ago. 2026.
MUNRO, Alice. Material. In: MUNRO, Alice. Selected Stories 1968–1994. New York: Vintage International, 1996. p. 74-92.
