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ACE Casual Friday #3: Viajando no trem da meia-noite para a Geórgia com Alice Walker

Ana Paula Carvalho · 28 ago 2026 · 7 min de leitura

Bom dia! O café de hoje vem acompanhado de grits. Nossa parada desta semana é a Geórgia. No roteiro: the bottom line e seus dois sentidos; o que é AAVE (African American Vernacular English); um hit do R&B entre as 500 maiores da Rolling Stone; e um romance em que quatro mulheres tomam quatro caminhos diferentes para sobreviver ao mesmo lugar.

1. Business English Expression of the Week: "The bottom line"

Se você ouvir essa expressão numa reunião, não pense na linha de baixo de um documento. O termo vem da contabilidade, pois num demonstrativo de resultados, a receita aparece na primeira linha e o lucro, depois de descontadas todas as despesas, na última. É literalmente a linha de baixo. Daí vieram os dois usos que você vai encontrar no trabalho: um financeiro e outro figurado.

No sentido literal, é o lucro.

Exemplo: "Sales are up, but after costs the bottom line is barely positive."

Tradução: "As vendas subiram, mas, descontados os custos, o lucro está no limite do positivo."

No sentido figurado, é o essencial, o que de fato importa numa discussão.

Exemplo: "The bottom line is that we can't deliver by March."

Tradução: "O essencial é que não conseguimos entregar até março."

2. Interculturalidade: AAVE (African American Vernacular English)

Ao ler A Cor Púrpura no original, em inglês, talvez você leve um susto. Logo na primeira carta, Celie escreve "she happy", sem verbo. Escreve "he don't say nothing", com duas negativas na mesma frase. Escreve "I is" onde a gramática pede "I am". Antes de concluir que o livro precisava de revisão, saiba que isso foi proposital e tem nome: AAVE, sigla de African American Vernacular English, a variedade do inglês falada historicamente por comunidades afro-americanas nos Estados Unidos.

A Linguistic Society of America, a maior associação de linguistas do mundo, aprovou em 1997 uma resolução afirmando que o AAVE é sistemático e regido por regras. Definiu, também, que descrevê-lo como gíria, preguiça ou inglês defeituoso é incorreto e injusto com quem o fala. O critério que os linguistas usam é bem simples: erro é aleatório, sistema é previsível. Por exemplo, Celie não deixa o verbo de fora quando dá na telha, ela o deixa sempre nos mesmos contextos. Ou seja, ela segue um sistema.

Alice Walker usou esse sistema com maestria, montando o romance com cartas de duas irmãs que escrevem de jeitos diferentes. Celie escreve na língua que ouviu em casa (AAVE) e Nettie, que estudou, em inglês padrão. Na literatura, saber transitar entre estilos e variações linguísticas é o que torna uma obra convincente (ou não), e é por isso que Guimarães Rosa não escreveu os vaqueiros de Sagarana em português de gramática.

3. Mídia: Música "Midnight Train to Georgia", Gladys Knight & the Pips

Um homem vende o próprio carro e compra uma passagem só de ida. Los Angeles não deu certo; o sonho de virar estrela não se concretizou, e ele volta para a Geórgia atrás do que sobrou da vida que tinha antes. Uma mulher decide ir junto e diz: "I'd rather live in his world than live without him in mine" (prefiro viver no mundo dele a viver sem ele no meu).

O que é interessante nessa gravação é que ela tem dois narradores. Gladys Knight conta a história com toda a delicadeza do mundo e diz apenas que Los Angeles foi demais para ele. Atrás dela, os Pips vão completando as frases sem cerimônia: ele não conseguiu, não chegou longe. Antes mesmo de ela anunciar que vai junto, eles já perguntam quem é que vai estar sentada ao lado dele naquele trem. Quando ela confirma, eles respondem que já sabiam.

Está no álbum "Imagination", gravado logo após o grupo deixar a Motown. Foi número um simultaneamente nas paradas pop e soul em 1973, levou o Grammy no ano seguinte e entrou para o Grammy Hall of Fame em 1999. Se você gosta de Aretha Franklin, Roberta Flack ou Bill Withers, vai se deleitar com essa canção.

Sugestão: ouça duas vezes, uma acompanhando Gladys e outra só os Pips.

4. Leitura da Semana: A Cor Púrpura, Alice Walker

Terminei este livro em lágrimas e vivi nele todas as emoções, levada por um misto de revolta e gratidão à vida. Se eu fosse descrevê-lo em um único adjetivo, escolheria "visceral". Mas, apesar de muitas situações devastadoras vividas pelas personagens, eu te tranquilizo que o final é recompensador.

O que é ser uma mulher afrodescendente na Geórgia rural no início do século XX? Este livro lança luz sobre as poucas possibilidades disponíveis à época em cada uma das suas personagens: Celie, Nettie, Shug Avery e Sofia.

Celie escolhe a submissão e servidão, porque é o que a mantém viva. Aguenta o casamento forçado, apanha, obedece, e escreve para Deus tudo aquilo que não pode dizer em voz alta. Nettie escolhe a fuga e o estudo: recusa as investidas do cunhado, é expulsa de casa e vai parar na África com uma família de missionários, onde tem oportunidade de se desenvolver intelectualmente e ter autonomia. Sofia escolhe o enfrentamento. Não abaixa a cabeça para marido nem para gente branca, e paga um preço altíssimo por isso. Shug Avery escolhe a liberdade: canta blues, viaja, ama quem quer e não presta contas a ninguém, o que na Geórgia daquela época equivale a viver fora da lei.

Quando os caminhos delas se cruzam, todas aprendem umas com as outras. Celie aprende com Sofia que dá para revidar. Com Shug Avery, aprende que pode brilhar, ter uma carreira de sucesso e romper com tabus da sociedade. Com Nettie, aprende que existe mundo para além daquela fazenda, e que quarenta anos de silêncio não são suficientes para desfazer uma irmandade.

Sugestão: se o seu nível de inglês permitir, leia no original. Agora que você já sabe o que é AAVE, a língua da Celie deixa de ser obstáculo e vira a melhor parte.

5. Frase que me deixou pensativa

"But one day when I was sitting quiet and feeling like a motherless child, which I was, it come to me: that feeling of being part of everything, not separate at all. I knew if I cut a tree, my arm would bleed."

Shug Avery, em The Color Purple, de Alice Walker (2017, p. 176).

Tradução livre: "Mas um dia, quando eu tava sentada quieta e me sentindo que nem criança sem mãe, que era o que eu era, me veio: aquela sensação de fazer parte de tudo, nada separado. Eu sabia que se eu cortasse uma árvore, meu braço ia sangrar." (WALKER, 2017, p. 176, tradução minha).

Glossário

Grits: mingau de milho seco moído grosso, cozido em água ou leite e servido principalmente no café da manhã. Acompanha de tudo: manteiga, queijo, ovos, bacon, molho de carne ou camarão. Prato de origem indígena que virou alimento básico do Sul dos Estados Unidos por ser barato e sustentar bem. É muito parecido com o nosso angu.

Motown: gravadora fundada em Detroit em 1959 por Berry Gordy Jr. Foi, por muito tempo, a maior empresa de propriedade negra dos Estados Unidos e revelou nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder e as Supremes. Segue existindo, hoje como selo do Universal Music Group.

Referências

GLADYS KNIGHT & THE PIPS. Midnight Train to Georgia. In: Imagination. Nova York: Buddah Records, 1973. 1 disco sonoro.

LINGUISTIC SOCIETY OF AMERICA. LSA Resolution on the Oakland "Ebonics" Issue. Chicago: LSA, 1997.

MUSANGA, Terrence; MUKHUBA, Theophilus. Toward the survival and wholeness of the African American community: a womanist reading of Alice Walker's The Color Purple (1982). Journal of Black Studies, v. 50, n. 4, p. 388-400, 2019.

SHAHEEN, Aamer; QAMAR, Sadia; KHAN, Muhammad Asif. African American Vernacular English (AAVE) and African American Identity in Alice Walker's The Color Purple: a stylistic analysis. Pakistan Languages and Humanities Review, v. 5, n. 2, p. 602-625, 2021.

WALKER, Alice. The Color Purple. Londres: W&N, 2017.

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